Mergulhar Mergulhei

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O menino peixe e a memória

O menino peixe e seus parceiros de guerra atentos e a postos em suas raias. O mar revolto resolve descansar e acena o grid de largada. O céu se enche de cores quentes. O menino olha pro céu e sente uma pequena vertigem, enquanto as criaturas marinhas se organizam em coro e balé aquático para anunciar mais um passeio. O taxista magnético agora é um maestro aquático, rufem os tambores e assim começa mais uma aventura de Pipo Pegoraro. Crawl, borboleta, peito e costas em nado intenso e livre. Rio-laranja-nilo-atlântico-índico e as sereias entoam seu canto: Aiye, Aiye, Ayie.

As criaturas, pouco a pouco, vão engrossando o caldo e o coro. Água marinha, Tubarão, Boto Rosa, Boto Verde, Boto Amarelo, Peixe-Boi, Cavalo-Marinho, corais, arraias, olhos abertos, olhos fechados, olhos abertos, braçadas, sopros, cordas, vibrafones, braçadas, atabaques, timbales, metalofones do fundo ecoam. Sim, certezas transbordando do fundo mar. Atlântida está fervendo em festa.

Ao longo do percurso, espaçonaves marinhas, submarinos coloridos, chuva e seres nunca imaginados, descobertas arqueológicas, novas reflexões e o pequeno maestro Aquaman amadurece pouco a pouco. Falta de ar, falta de água, caçadas intermináveis, revolta das águas, vitórias, leões-marinhos, sinos e trombetas. Algumas pausas em ilhas tão bonitas quanto um pequeno sorriso sincero ou susto de surpresa boa.

Durante toda a jornada, dentro da cabeça do menino, um outro filme é exibido em hd spacial surround: suas memórias engarrafadas finalmente reveladas como um tesouro que só se encontra no fundo mar. Desvarios, bonanças, vapores, ventos, cambaleadas, enigmas indecifráveis, pérolas, a eternidade no primeiro abrir de olhos do pequeno Henri, Jonas, Iara, esfinges, espelhos d'água, perguntas, visitas amorosas com chá e bolo de fubá quentinho, memórias degustativas, despedidas, feridas abertas que se fecham e se abrem novamente, memórias afetivas, água e sabão de coco, rosálias, crustáceos, saudações, baleias brilhantes, mãos que se enlaçam, novos gestos, nado sincronizado e os braços da mãe água desembaraçam cada fio de sua história com carinho e precisão. Destemido, sem máscaras, sem cilindro ou nadadeiras, sem artifícios. Porque as coisas mais simples e corriqueiras são mais profundas do que podemos supor. Porque o que só cabe em nós não tem fim.

Porque mergulhar é preciso, ele mergulhou.

 

Mergulhar, mergulhei de Pipo Pegoraro – por Bruno Morais